
A fatalidade, que parece dominar a história, não é mais do que a aparência ilusória desta
indiferença, deste absentismo. (...) Os destinos de uma época são manipulados de acordo
com visões limitadas e com fins imediatos, de acordo com ambições e paixões pessoais
de pequenos grupos ativos, e a massa dos homens não se preocupa com isso. Mas os
fatos que amadureceram vêm à superfície; o tecido feito na sombra chega ao seu fim, e
então parece ser a fatalidade a arrastar tudo e todos, parece que a história não é mais do
que um gigantesco fenômeno natural, uma erupção, um terremoto, de que são todos
vítimas (...). Alguns choramingam piedosamente, outros blasfemam obscenamente, mas
nenhum ou poucos põem esta questão: se eu tivesse também cumprido o meu dever, se
tivesse procurado fazer valer a minha vontade, o meu parecer, teria sucedido o que
sucedeu? (GRAMSCI, 1917/2005)
1. Introdução
A greve instalou-se nas instituições federais de ensino superior do Brasil. A grande maioria dos
institutos federais e universidades estão parados. O movimento grevista é fruto da indignação
perante o descaso do governo federal para com a educação. Descaso esse que gera situações
insustentáveis de precarização do trabalho e educação e que se torna mais escrachado diante dos
incomensuráveis investimentos governamentais nos grandes eventos esportivos que ocorrerão no
país, vide copa do mundo e olimpíadas. O movimento uniu professores, estudantes, e técnicos na
luta por melhorias no quadro da educação brasileira: condições dignas de trabalho necessárias a
uma educação de qualidade.
A Universidade Federal de Alfenas aderiu ao movimento nacional e vêm, desde então, realizando
atividades junto a população alfenense de conscientização acerca da legitimidade da greve e da
situação da educação no país. O objetivo deste texto é propor a discussão: pensar de uma maneira
crítica tais atividades mantendo sempre em vista compreendê-las para que se desenvolvam e
exerçam eficácia satisfatória. Realizam-se manifestações e passeatas pacíficas, exibições de vídeos,
palestras e aulas públicas nas praças da cidade, juntamente a debates, reuniões, exibições de filmes,
oficinas, eventos musicais, entre outras atividades que ocorrem na universidade. De tais atividades
as que atingem um maior número de pessoas que não possuem vínculo com a universidade são as
que ocorrem fora de seus muros. Essas atividades são o nosso foco.
2.Por quem? Para quem?
Partindo do pressuposto de que as ideias dominantes de uma época são as ideias da classe
dominante, fato reforçado pela mídia corporativista, o movimento grevista educacional é visto pelo
senso comum como desnecessário e ilegítimo. Quando não ignora o tema, a mídia aborda-o de
maneira parcial e tendenciosa ressaltando os prejuízos causados pela greve (queda do consumo no
comércio regional, aulas perdidas, paralisações de trânsito causadas por manifestações, etc...) e em
momento algum esclarece de maneira adequada os questionamentos acerca da gênese do
movimento, suas bandeiras e seu desenrolar. As atividades que acontecem nas praças aproximam
cidadãos alfenenses, professores, alunos e técnicos, desta maneira sendo um instrumento de
conscientização a respeito da realidade social brasileira para todos aqueles que dele participam de
algum modo.
Estamos longe da ilusão de que o movimento funcione como uma mera conscientização acerca
do atual cenário educacional brasileiro posta a uma entidade abstrata denominada “povo”, a qual
supostamente não possui senso crítico suficiente nem para perceber a situação deplorável dos
serviços prestados pelo Estado. Esse movimento é, antes de tudo, a construção em cada um de seus
participantes de uma concepção do ser humano enquanto ser prático que interfere, cria e participa
de uma realidade historicamente constituída. Se essa postura é perdida o movimento torna-se infértil
e até mesmo degenera no seu oposto: manipulação da força das massas tendo em vista determinados
objetivos particulares. Não é digno desiludir iludindo, desmascarar um aspecto mascarando outro.
Distante de perverter as bandeiras do movimento essa afirmação é condição de sua plena validade.
Marx afirmou que ser radical é agarrar as coisas pela raiz, e que a raiz do homem é o próprio
homem[1]. Nesse sentido as aspirações do movimento necessitam ser radicais. É ineficaz “tampar o
sol com a peneira”.
3.O absurdo cotidiano
Uma das palavras de ordem do movimento grevista educacional diz o seguinte: “é ou não é
piada de salão, tem dinheiro para banqueiro mas não tem para a educação”. Qual o absurdo contido
nessa frase que fundamenta a piada? Em outras palavras, de onde vem a sua “graça”? Obviamente
na relação invertida do Estado: ao invés de cumprir a função de sua existência que é garantir a
liberdade, autonomia e bem comum dos cidadãos acaba por ser, como uma vez já foi dito, um
comitê para gerir os negócios da burguesia. Mas se essa relação invertida do Estado é tão absurda,
por que as pessoas em geral parecem percebê-la mas não fazer nada a respeito?
No sistema em que vivemos somos submetidos ao imediatismo do consumo, à mercantilização
do tempo e à alienação do trabalho, fatos esses que em sua relação criam e mantém uma ideologia.
Essa ideologia da classe dominante tem como característica naturalizar o que é historicamente
construído, ou seja, fazer com que pareçam totalmente naturais todas essas relações perversas de
opressão vividas nesse sistema, como se tais relações sempre houvessem existido e estão portanto
fadadas a eternidade. A ideologia dominante propaga uma falsa consciência e procura mascarar as
relações de desigualdade e opressão sob o aspecto da normalidade. É justamente essa relação
estranhada do ser humano consigo mesmo que cria esse paradoxo: eu sinto a realidade como
absurda, mas ao mesmo tempo materialmente e ideologicamente, sou impelido a reproduzir essa
mesma realidade. [2]
Quando as pessoas param de se mover instintivamente em seu cotidiano e refletem sobre o
sentido desse seu agir, surge a consciência do absurdo. Quando paramos por um momento de agir
mecanicamente, reproduzindo a mesma rotina dia após dia e refletimos sobre o sentido de tudo isso,
nasce um sentimento de indignação: percebemos as condições absurdas a que os seres humanos são
submetidos em nossa sociedade. Acordar, escovar os dentes, amarrar os cadarços, trabalhar e
receber um salário para sobreviver: é para isso que existimos? O questionamento sobre um
cotidiano absurdo na verdade é um questionamento sobre uma realidade que se mostra absurda.
Estamos em uma situação em que o ser humano é forçado a vender sua força de trabalho para
garantir sua sobrevivência, assim se submetendo a atividades mecânicas e tediosas nas quais não se
reconhece. Ao longo da história construíram-se condições que trouxeram-nos até este momento.
Essa situação se desenvolveu ao longo dos últimos séculos.
Se os professores, alunos e técnicos estão nas ruas lutando por uma educação e condições de
trabalho mais dignas, foi consequência de uma atitude do governo de não valorizar a educação e o
trabalho. O governo não prioriza a educação e o trabalho porque no sistema capitalista o que é
priorizado é a acumulação de renda e o individualismo.
O corte efetuado pela presidenta Dilma na verba educacional é fruto da instabilidade gerada pela
crise internacional do capital ocorrida em 2008. Como podemos perceber, os fatos estão
relacionados. Não devemos compreender o movimento grevista alfenense como um fenômeno
isolado, mas sim como um fenômeno mediato, ou seja, que possui relações com inúmeros outros
fenômenos. A luta por melhorias na educação traz em seu seio a luta pela libertação do ser humano
e mostra que a questão central continua sendo a propriedade privada.
4.“Nós somos aqueles por quem estávamos esperando” [3]
Desse modo a luta do movimento representa uma aspiração legítima, necessária e que não se
pode sufocar: a luta pelo fim de relações de opressão social. Se essa é a raiz do movimento, as
manifestações realizadas nas praças devem refleti-la. As palavras de ordem e as demais ações
devem tocar no ponto principal: a tomada de consciência da população de que a prática é mais que
possível, é imanente. A possibilidade de uma educação de qualidade não é nada menos que real. Ela
depende das ações de cada membro da sociedade, ações que de modo organizado ganham força.
Portanto, devemos ser inexoráveis ao eliminar os elementos da ideologia dominante dos nossos
discursos: não será utilizando dos artifícios de dominação da burguesia que conseguiremos nossos
objetivos. Não será reproduzindo as mesmas ideias vazias que mudaremos a situação. A inteligência
da população não deve ser subestimada. Se sob o pretexto de aproximar ou identificar o movimento
à população fazemos uso da ideologia dominante que está fortemente disseminada no seu meio,
acabamos por reproduzir e fortalecer essa mesma ideologia, assim distanciando do verdadeiro
objetivo.
Disse Hegel que a verdade é o todo. Se não enxergamos o todo, damos valor demais uma verdade
limitada, parcial, e assim ela se transforma em mentira. Se ignorarmos que a greve educacional é
fruto da indignação perante um complexo sistema de relações sociais de opressão e, portanto não
apenas uma mera questão de orçamento governamental, perdemos a oportunidade de vislumbrar a
totalidade da situação e caímos de volta no ciclo vicioso de um cotidiano absurdo, de uma realidade
sem sentido. Esse é o momento de percebemos que “nós somos aqueles por quem estávamos
esperando”. Bertold Brecht, em sua poesia, Elogio da Dialética, abre nossos olhos:
A injustiça avança hoje a passo firme
Os tiranos fazem planos para dez mil anos
O poder apregoa: as coisas continuarão a ser
como são
Nenhuma voz além da dos que mandam
E em todos os mercados proclama a
exploração;
isto é apenas o meu começo
Mas entre os oprimidos muitos há que agora
dizem
Aquilo que nós queremos nunca mais o
alcançaremos
Quem ainda está vivo não diga: nunca
O que é seguro não é seguro
As coisas não continuarão a ser como são
Depois de falarem os dominantes
Falarão os dominados
Quem pois ousa dizer: nunca
De quem depende que a opressão prossiga?
De nós
De quem depende que ela acabe? Também de
nós
O que é esmagado que se levante!
O que está perdido, lute!
O que sabe ao que se chegou, que há aí que o
retenha
E nunca será: ainda hoje
Porque os vencidos de hoje são os vencedores
de amanhã
[ 1 - MARX, Karl – 1844/2005
2 – (As ideologias dominantes) Devem ser “reais” o bastante para propiciar a base sobre a qual os indivíduos possam
moldar uma identidade coerente, devem fornecer motivações sólidas para a ação efetiva, e devem empenhar-se, o
mínimo que seja, para explicar suas contradições e incoerências mais flagrantes. Em resumo, para terem êxito, as
ideologias devem ser mais que ilusões impostas e, a despeito de todas as suas inconsistências, devem comunicar a seus
sujeitos uma versão da realidade social que seja real e reconhecível o bastante para não ser peremptoriamente rejeitada. (EAGLETON, 2009, p.27)3 - ZIZEK, Slavoj, 2011, p.128.
3 - ZIZEK, Slavoj, 2011, p.128.]
POR: Malu Marzagão- estudante de Ciências Sociais UNIFAL MG


