sábado, 17 de dezembro de 2011
Palestinos buscam reconciliação e trocam luta armada por resistência pacífica
No dia 28 de novembro, Mahmoud Abbas – presidente da ANP (Autoridade Nacional Palestina) e líder do Fatah – e Khaled Meshaal – líder do Hamas no exílio em Damasco – encontravam-se no Cairo para iniciar o processo de reconciliação entre as duas maiores facções da política palestina. Enquanto isso, no Brasil, representantes da esquerda e de movimentos sociais palestinos discutiam formas para sua reorganização enquanto estreitavam laços com setores da esquerda brasileira, durante o I Encontro de Solidariedade do Povo Palestino, ocorrido na Escola Florestan Fernandes).
Aqui, as dificuldades da reorganização política ficaram claras. O problema passa pelas últimas décadas do conflito, da sociedade onde viveram as gerações que hoje protestam dentro dos Territórios Ocupados. As agendas dos tradicionais movimentos de esquerda organizados agora convivem com iniciativas fragmentadas que partem de Comitês locais na tentativa de reestruturar a resistência, tirá-la dos escombros de dois acontecimentos que destruíram não apenas a política, mas toda a sociedade palestina: as consequências dos Acordos de Oslo – desde sua assinatura, em 1994, até 2000 – e a 2ª Intifada e a repressão do exército israelense, de 2000 até 2008.
Aqui esteve Leila Khaled, a notória membro da FPLP (Frente Popular pela Libertação da Palestina), uma terrorista de alta graduação aos olhos do governo israelense. Nos olhos palestinos, apenas admiração. Ela é um símbolo da resistência. Aos 24 anos, em 1969, foi a primeira mulher a realizar (ao lado de Salim Issawi) o sequestro um avião por motivos políticos. Ao assumir o controle do avião, disse no alto-falante: “Senhoras e senhores, sua atenção por favor, gentilmente apertem seus cintos. Esta é sua nova capitã falando. A unidade de comando Che Guevara da Frente Popular pela Libertação da Palestina...” (o relato está no site do filme de Lina Makhboul, “Leila Khaled Hijacker”). O avião foi desviado para Damasco. Lá, dois israelenses foram mantidos prisioneiros e depois libertados por 71 soldados sírios e egípcios.
Leila mora na Jordânia e ainda hoje milita pela FPLP. Seu discurso teve que se adaptar às novas realidades do conflito palestino-israelense, mas suas convicções são inflexíveis. “Nossa revolução explodiu em 1967, e então existiam apenas duas facções, o Fatah e a FPLP. Depois, outras organizações emergiram. Estamos todos sob a OLP (Organização pela Libertação da Palestina), esta é nossa Frente Nacional que representa todos os palestinos, aqueles dentro e aqueles fora da Palestina”. Leila poderia estar querendo reforçar o passado ou dar uma aula de história da resistência. Mas com certeza não faltou a alfinetada contra as atuais facções de poder da política palestina que se encontravam no Cairo. A prioridade é reconstruir a OLP, “construir uma unidade nacional entre todas as facções, seja entre islamitas, sectários, marxistas, entre as diferentes ideologias. E temos um documento, um programa iniciado pelos prisioneiros em 2008 e todos nós assinamos, inclusive islamitas, no Cairo. Agora temos que implementá-lo”.
Renovação pacifista
Longe dos círculos de partidos está uma nova geração de ativistas e militantes palestinos surgida das vilas que enxergam de perto os Muros e o aumento da construção de assentamentos nos Territórios Ocupados. A geração que teve que burlar os toques de recolher do exército israelense durante a 2ª Intifada.
A resistência armada foi deixada de lado. Hoje, os palestinos marcham semanalmente sob a bandeira da resistência pacífica. A vila de Bil´in, a 20 minutos de Ramallah, virou o símbolo dessa luta. Desde 2005, quando o trecho do Muro israelense na Cisjordânia começou a ser construído em parte de terras da vila, eles começaram os protestos. Eram marchas apenas paramentadas com bandeiras e gritos de libertação. Enquanto Abdallah Abu-Rahman estava no Brasil, seu companheiros de vila tentaram montar uma tenda de apoio a agricultores em uma parte da terra que foi devolvida a Bil´in em junho deste ano. Sim, depois de 6 anos de protestos, cerca de metade da terra tomada foi devolvida. “Foi uma pequena vitória reconquistar uma parte de nossa terra. Em 23 de junho, removeram a antiga rota do Muro, mas tomamos a decisão de continuar nossa resistência, pois ainda temos a nova rota do Muro em parte de nossas terras e o assentamento de Talpyot Leste”.
Outras vilas seguiram o modelo. Alma´sara é uma delas. Mahmoud Zuahre é um dos líderes do Comitê Popular da vila. A organização coordenada das vilas ganha corpo com o tempo. Hoje são 16 vilas no Comitê de Coordenação Popular das Vilas, e 21 que usam das manifestações de sexta-feira para protestar contra o Muro e assentamentos. “Com o Comitê de Coordenação, construímos a estrutura dos Comitês Populares , com um representante de cada Comitê de vila na Coordenação. Assim, construímos a capacidade dos ativistas com a mídia, com a lei internacional e fazemos treinamentos de diferentes atividades. Essa é uma forma para construir o movimento social na Palestina para continuar a resistir”.
A resistência mudou. E apesar de parecer descontente, Leila entende a atual situação nos Territórios Ocupados. “Nosso povo tentou todos os meios. A luta armada, a 1ª Intifada, popular, com pedras, e a 2ª Intifada, armada. O resultado, da 1ª, foram os Acordos de Oslo, que não trouxeram nenhum de nossos direitos e nem tocou nas questões centrais. A 2ª foi um levante militar violento, com armas. Claro, o balanço de forças é favorável aos israelenses, não a nós”.
Abdallah ao responder como a resistência mudou da armada para a pacífica, parecia tentar mais uma vez se justificar a Leila. “Enquanto a ocupação estiver na nossa terra, temos o direito de usar todo tipo de resistência. E eu respeito Leila Khaled. Mas eu disse a ela, sobre a minha estratégia... a 2ª Intifada não foi boa para nós. Os israelenses foram bem-sucedidos em usar esta forma de resistência contra nós. E por isso, nesse momento, especialmente depois do 9/11 e o retrato da mídia de que quem usa a resistência militar é um terrorista, a resistência pacífica agora é um meio melhor. Eu expliquei isso à Leila Khaled, ela me ouviu e respeitou minha luta e minha estratégia sobre o que acontece”.
Ainda que Leila Khaled enxergue o balanço de forças desfavorável à uma luta armada palestina, ainda acredita nela, diz que “com tal inimigo e com tal ocupação, quando esta força reacionária se volta contra nós, não podemos encará-la com flores, temos que encará-la com luta armada”.
O futuro mesmo para a resistência pacífica ainda é nebuloso. As facções palestinas se envolvem em negociações que muitos hesitam em esperar grandes resultados. A ocupação dos Territórios deve escalar, com os colonos e o aumento dos assentamentos. Uma escalada de conflitos pode ocorrer. “Quando a ANP foi à ONU, os colonos começaram uma campanha para que sionistas fossem até a Cisjordânia. Por outro lado, nós lançamos, como Comitês Populares, a campanha ‘Nos recusamos a morrer em silêncio’ para proteger os fazendeiros. Sabemos o quanto será perigoso, se ficarmos em silêncio. Pode ocorrer o mesmo que ocorreu em Deir Yassin. É a repetição da história”, diz Mahmoud. Ele admite que mesmo que haja uma coordenação “nacional” na Cisjordânia, a resistência dos protestos não pode atacar todos os problemas da ocupação. “Acho que o que estamos fazendo é aquecer a situação em direção à Terceira Intifada”.
Trailer do documentário Budrus, que narra a história da vila de Bil´in: http://www.youtube.com/watch?v=ff7rScVrbos&feature=player_embedded#!
FONTE: http://operamundi.uol.com.br
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