sábado, 28 de janeiro de 2012

Arapongagem na USP: “Isso só acontece em estado de exceção”, diz Benevides


Para a socióloga e professora titular da USP, Maria Victoria Benevides, é inadmissível perseguição política na universidade

A edição de janeiro da revista Fórum trouxe uma denúncia sobre um esquema de arapongagem estruturado para investigar professores, movimentos estudantis e trabalhadores na USP. Para a socióloga e professora titular da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, Maria Victoria Benevides, o sistema de espionagem fere o espaço estudantil e só faria sentido em um contexto de estado de exceção. “Uma das principais características de uma situação de democracia efetiva é a transparência nas atividades que envolvem qualquer tipo de poder, uso de recurso público, regimentos, regras, punições. É absolutamente inadmissível que haja controle secreto numa universidade. Uma universidade não é espaço para espionagem. Isso só faz sentido numa situação militar ou semelhante, em estado de exceção, ou quando envolve questões que dizem respeito à segurança nacional”, diz. Para ela, “se no plano político a transparência é absolutamente indispensável, em um regime democrático, numa universidade, é mais ainda, pois se trata de um território livre, de reflexão, de pensamento livre e não há o menor sentido em existir arapongagem”.

A professora comenta também que não compreende como a universidade não se manifesta diante da tamanha gravidade que traz a denúncia da reportagem. “Me espanta profundamente a falta de posição mais democrática dos órgãos da USP, das autoridades competentes da universidade. Eu me aposento neste semestre, estou afastada das atividades da universidade, mas, pelo que sei de colegas e pelo que recebo pela internet de informação, fico indignada de ver que eles não se manifestam, nem que seja para negar”, critica a professora. “E, se negar, que neguem de maneira convincente, dando contraprovas para essa matéria. Essa é uma falha muito grande das autoridades”, complementa.

Ainda a respeito dos órgãos da universidade, Benevides salienta que é afiliada à Adusp (Associação dos Docentes da Universidade de São Paulo) e que levará em conta a posição da associação sobre a matéria. “É importante ressaltar isso, pois é o órgão que representa a comunidade docente e ao qual eu sou afiliada”.

Sobre o caso de agressão ao estudante, Benevides acredita que houve abuso de poder e que situações como essa e perseguições políticas devem ser investigadas. “Deve existir o direito de expressão, de opinião, respeito às divergências. Eu, que sou uma pessoa democrática, defendo os direitos humanos e o reconhecimento dos posicionamentos políticos divergentes. Não defendo e nem defenderei o vandalismo de aluno, mas muitíssimo menos a violência de autoridades dentro da universidade. Não se pode criminalizar movimentos, opiniões de alunos, professores ou funcionários. Deve ser criminalizado o que faz parte da criminalidade comum. Por exemplo, a agressão contra o estudante negro, que foi divulgada na internet e na imprensa, é um abuso grave da autoridade dentro da universidade e deve haver punição, sem dúvidas” conclui.

Por Sâmia Gabriela Teixeira

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